
Nos últimos dias, as ações do Bradesco (BBDC4) chamaram a atenção registrando uma queda de 17%, a maior desde 1998 para o papel. Para entender as razões por trás da baixa e saber a reação dos clientes diante do resultado negativo, a CRC!News conversou com dois assessores de investimento, que ainda falaram sobre as perspectivas para o ativo frente aos pares dentro do segmento bancário. Veja a seguir.
Danilo Guglielmo, head de Renda Variável da Dynamics Investimentos, escritório vinculado à Modal

Dias atrás, as ações do Bradesco despencaram 17%, a maior queda desde 1998. O que está acontecendo com o papel?
Na nossa visão, os resultados reportados para o terceiro trimestre de 2022 foram abaixo da expectativa do mercado, puxadas especialmente pela área de crédito do banco. Ela indicou maior nível de inadimplência, afetando a tesouraria. O cenário político também contribuiu para a queda, que entendemos como excessiva para uma instituição que reportou lucro superior a R$4 bilhões no período. O desconto de mercado foi exagerado, no entanto traz indicações importantes de dias mais difíceis para o setor financeiro.
Como tem sido a reação dos clientes em relação a esta baixa?
No geral, mantemos nossos clientes com exposição proporcionalmente baixa de suas carteiras na classe de renda variável direta. No decorrer de 2022, realizamos lucro na maior parte das posições relacionadas ao setor financeiro ou optamos por operações estruturadas com viés protetivo de prazo mais esticado. Considerando essa combinação de fatores e a contínua atualização do cenário macro junto à nossa base de clientes, as reações mais carregadas de emoção foram próximas de zero.
Quais as perspectivas para o ativo? O Bradesco continua sendo uma boa opção? Ou existem outras empresas mais atrativas no setor bancário?
Tomando como base as análises de preço alvo e recomendação da casa de research da plataforma parceira (Modal/Eleven), entendemos que existe espaço para valorização do ativo no longo prazo, acima de 1 ano. No entanto, o cenário de momento para o setor financeiro ainda é de incerteza devido às perspectivas do novo governo e sua área econômica. O próprio grupo Bradesco oferece uma alternativa interessante: BRAP4, que combina as operações financeiras com setores de commodities e industrial. Certamente existem nomes com maior potencial de upside no segmento, mas vale ressaltar que excluindo o evento esporádico da última semana, ações com esse perfil ajudam a reduzir
a volatilidade da carteira.
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Ronaldo Bella, CFP®, sócio da Allux Investimentos, escritório vinculado à XP

Dias atrás, as ações do Bradesco despencaram 17%, a maior queda desde 1998. O que está acontecendo com o papel?
Segundo analistas, houve uma reação muito ruim do mercado com relação ao balanço trimestral. Essa fase de divulgação é mais volátil e as ações costumam oscilar, pois o mercado reajusta sua expectativa quanto ao papel. Além disso, estamos em um momento bem azedo por conta da transição do governo. Outro ponto que chamou atenção foi o aumento do PDD (Provisão de Devedores Duvidosos). O banco vai precisar fazer todo um trabalho para recuperar isso, seja por cobrança própria ou venda da carteira. Mas só vamos conseguir ver os resultados a partir das próximas divulgações.
Como tem sido a reação dos clientes em relação a esta baixa?
Não buscamos fazer operações de curto prazo. A ideia é disseminar o entendimento de que a bolsa é lugar de comprar empresas. E você só encontra boas companhias a preços baixos quando sai um resultado ruim e o mercado não está bom. Como falamos isso todos os dias, a grande maioria dos clientes veio perguntar se era uma boa hora para comprar mais. Não tivemos ninguém saindo do papel nem vimos uma reação tão negativa. Há uma diferença de percepção dependendo do tamanho do negócio. Não vejo grande questionamento em relação ao risco de quebra quando se trata de blue chips. É o Bradesco no final das contas.
Quais as perspectivas para o ativo? O Bradesco continua sendo uma boa opção? Ou existem outras empresas mais atrativas no setor bancário?
Por muitos anos, Bradesco e Itaú nadaram de braçada em tarifas altas, pois não tinha muita concorrência. Hoje, o mercado está diferente e mais dinâmico. As empresas não precisam mais buscar um banco para se financiar. Podem recorrer a um fundo de investimento em direitos creditórios, por exemplo. Existem também várias plataformas que não trabalham mais com taxas de manutenção de conta, TED etc. Tudo isso diminuiu a receita do setor. O mercado está mais desbancarizado na parte de investimentos, créditos, e até mesmo em relação a seguros. O setor precisa se reinventar, mas esses bancos grandes têm muito capital para fazer isso. Sobre a avaliação do ativo frente aos pares, cada analista tem suas métricas. O Itaú deu recomendação neutra. Ou seja, não se deve comprar mais, mas quem está no papel também não deve vender. Já o JP Morgan recomendou compra, pois acredita que ficou muito barato. Mas mais importante para o investidor é ter sempre diversificação.
Texto publicado na edição 61 da revista CRC!News, acesse e leia os principais destaques do setor.