Por Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research:
O Banco Central realizou o corte de juros, como sinalizado em janeiro, abaixo das nossas projeções, que eram de 0,5 ponto percentual, com um corte efetivo de 0,25. Isso ocorreu, principalmente, por conta do conflito no Oriente Médio e das incertezas em relação ao patamar do preço do petróleo, além dos impactos sobre os combustíveis no mercado interno, como diesel e gasolina, e sobre toda a cadeia produtiva, via custos indiretos.
Ainda há uma incerteza muito grande no cenário, o que foi ressaltado tanto no balanço de riscos quanto no comunicado.
Há, no entanto, um ponto importante: o comitê realizou o corte porque enxerga um cenário relativamente propício. A taxa de juros foi elevada para 15% e mantida nesse patamar por um período prolongado, em um movimento considerado crível, com ganho de credibilidade. Isso já vem produzindo efeitos, como a desaceleração da atividade econômica, o arrefecimento dos preços e a melhora das expectativas de inflação nos últimos meses, apesar de uma leve deterioração recente, influenciada pelo conflito.
Quando observamos as projeções no horizonte relevante do Banco Central, houve uma alta marginal, de 3,2% para 3,3%, ainda próxima da meta de 3%. Ou seja, existem elementos que justificam o corte realizado, embora o ambiente internacional siga bastante incerto, o que levou a autoridade monetária a adotar uma postura cautelosa.
O comunicado foi positivo, ao destacar essas incertezas. Em relação aos próximos passos, o Banco Central indicou a necessidade de incorporar novas informações para avaliar a profundidade e a duração do conflito, bem como seus efeitos diretos e indiretos sobre os níveis de preços.
No nosso cenário base, seguimos acreditando na continuidade do ciclo de cortes, mas isso dependerá diretamente da evolução do conflito. Nossa hipótese é de uma duração relativamente breve, considerando também fatores políticos nos Estados Unidos. A alta dos preços de combustíveis, como a gasolina, pode impactar a popularidade de Donald Trump, além de pressionar os preços de outros bens e dificultar o desempenho do Partido Republicano nas eleições de midterms.
Com a eventual dissipação do conflito, a tendência é de melhora do cenário, permitindo uma leitura mais clara dos novos níveis de preços.
Assim, ainda vemos espaço para cortes adicionais de juros, mas a extensão e os impactos do conflito seguem como os principais fatores de risco para o mercado neste momento.









