Por Pedro Luís.
O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Apesar do corte, a autoridade monetária não antecipou seus próximos passos, mantendo em aberto a possibilidade de continuidade ou de pausa no processo de flexibilização dos juros.
A decisão foi tomada diante da avaliação de que houve avanço no processo de desinflação. Segundo o comunicado mencionado pelo editorial do jornal Valor Econômico, o cenário permite uma moderação gradual da atividade econômica, após um período de maior aceleração, enquanto a inflação continua desacelerando.
O Banco Central observou, no entanto, que a inflação ainda não superou integralmente a meta. As medidas subjacentes apresentaram desaceleração, mas permanecem em nível ligeiramente inferior a 4,5%.
A autoridade monetária também demonstrou preocupação com as expectativas de inflação. As projeções apresentadas no boletim Focus ainda indicam índices acima da meta para 2027 e 2028. Para o primeiro trimestre de 2028, horizonte considerado relevante para a política monetária, o Banco Central projeta IPCA de 3,2%.
De acordo com o editorial, a economia brasileira apresentou sinais de enfraquecimento após a reunião anterior do Copom. As taxas de juros elevadas vêm reduzindo a velocidade da atividade, embora os efeitos sejam parcialmente compensados pelos estímulos fiscais e parafiscais e por medidas associadas ao período eleitoral.
As projeções para o Produto Interno Bruto de 2026 subiram ao longo do primeiro semestre e se estabilizaram em 1,99%. Para 2027, as estimativas recuaram de 1,69% para 1,57%. O texto avalia que, até o final de 2026, o crescimento poderá superar o potencial da economia, dificultando uma redução mais rápida da inflação.
Indústria e varejo mostram desaceleração
Os indicadores econômicos passaram a apontar perda de ritmo a partir de maio, embora de forma moderada. A produção industrial caiu 1,8% em junho, registrando o pior resultado desde 2014.
Dos 25 setores industriais analisados, 16 reduziram a produção. A maior queda ocorreu entre os bens duráveis, com recuo de 3,2%, seguida pelos bens intermediários, que caíram 1,1%. No segundo trimestre, porém, a indústria acumulou avanço de 0,3%, após crescer 1,5% nos três primeiros meses do ano.
As vendas do varejo também desaceleraram. O comércio restrito avançou apenas 0,1% em maio, com hipermercados e supermercados apresentando queda mensal de 1,5%, o pior desempenho em quase dois anos.
O setor de serviços recuou 0,4% em maio, mas ainda acumula crescimento de 1,9% no ano e de 2,6% nos 12 meses encerrados naquele mês. O segmento representa pouco mais de dois terços da oferta do PIB e continua sendo sustentado pelo mercado de trabalho e pelos ganhos de renda.
Mercado de trabalho segue pressionando os preços
Embora a taxa de desemprego tenha alcançado 5,4% no trimestre encerrado em junho, o segundo menor nível da série iniciada em 2012, alguns indicadores sugerem uma possível perda de dinamismo.
As contratações vêm desacelerando, enquanto as demissões aumentaram. Os salários também recuaram pelo segundo mês consecutivo em junho, com queda de 1,5% em relação a maio. Apesar disso, a massa de rendimentos permanece elevada e continua sustentando a inflação de serviços.
Nos 12 meses encerrados em junho, a inflação dos serviços atingiu 5,9%, medida pelo IPCA. Para o editorial, uma desaceleração mais forte dos salários será importante para reduzir essa pressão inflacionária.
Cenário fiscal e eleitoral limita espaço para redução
O texto avalia que permanecem incertezas internas e externas capazes de provocar uma condução mais cautelosa da política monetária. Analistas do mercado projetam pelo menos mais um corte de juros até o final do ano, levando a Selic a 13,75%.
Os estímulos ao crédito destinados a diferentes setores da economia também deverão produzir efeitos durante o período eleitoral, o que poderá obrigar o Banco Central a reduzir o ritmo dos cortes.
O editorial ainda destaca a situação das contas públicas. Segundo o texto, a política fiscal do governo pressiona a dívida e amplia o custo dos juros, que somou R$ 1,16 trilhão nos 12 meses encerrados em junho. A avaliação é de que, sem superávit primário, o quadro fiscal poderá se deteriorar mais rapidamente.








