Por Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, sobre os dados de IPCA.
O IPCA avançou 0,16% em junho, ficando 0,42 p.p. abaixo da taxa de maio (0,58%) e mostrando desaceleração expressiva na margem. O resultado surpreendeu para baixo, vindo bem aquém de nossa projeção (0,34%) e da mediana de mercado (0,31%, pela pesquisa Reuters). Nos últimos 12 meses, a inflação recuou de 4,72% para 4,64%, ainda que se mantenha acima do teto da meta.
De acordo com o IBGE, entre os nove grupos pesquisados, a única pressão de alta relevante veio de Habitação, com avanço mensal de 0,63% e impacto de 0,10 p.p. Em contraste, Alimentação e bebidas recuou 0,24% e respondeu pelo maior impacto negativo do mês (-0,05 p.p.). Foi justamente a reversão dos alimentos — que haviam subido 1,33% em maio — o principal fator por trás da surpresa baixista frente à nossa projeção, somada ao recuo dos combustíveis.
No grupo Alimentação e bebidas, a alimentação no domicílio passou de alta de 1,65% em maio para queda de 0,39% em junho, com destaque para os recuos de café moído (-3,72%), frutas (-1,58%) e carnes (-0,64%). O grupo Habitação desacelerou de 1,22% em maio para 0,63% em junho. A energia elétrica residencial arrefeceu de 3,67% para 1,53%, mas seguiu como o principal impacto individual do mês (0,06 p.p.). O resultado reflete a permanência da bandeira tarifária amarela — com cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos — somada à incorporação de reajustes tarifários em algumas capitais.
O grupo Transportes avançou 0,17%, resultado da combinação entre a alta de 7,12% das passagens aéreas e o recuo de 0,48% nos combustíveis. Todos os itens do subgrupo cederam: etanol (-3,09%), óleo diesel (-1,19%), gás veicular (-0,19%) e gasolina (-0,12%).
Do ponto de vista qualitativo, a leitura de junho foi predominantemente benigna. Na variação mensal, os principais agregados acompanhados pelo Banco Central desaceleraram na passagem de maio para junho: os serviços recuaram de 0,40% para 0,34%, os serviços subjacentes de 0,40% para 0,22% e os bens industriais de 0,32% para 0,11%. O índice de difusão cedeu de 0,65% para 0,54% e a média dos núcleos caiu de 0,45% para 0,21%, movimento verificado nos cinco núcleos individuais.
Essa leitura é corroborada pelas médias móveis de três meses com ajuste sazonal anualizado (MM3MAS) — métrica que melhor capta a tendência subjacente dos preços. O índice cheio desacelerou de 7,13% em maio para 6,02% em junho, com recuos igualmente disseminados: os serviços cederam de 6,15% para 5,66%, os serviços subjacentes de 5,57% para 4,80% e os bens industriais de 3,98% para 3,79%. Entre os núcleos, a média recuou de 5,29% para 4,91%, movimento observado em todos os indicadores individuais.
A única exceção ficou por conta dos serviços intensivos em mão de obra, que aceleraram de 0,50% para 0,55%, e na MM3MAS voltaram a avançar de 7,19% para 7,41%, refletindo o mercado de trabalho aquecido.
Em síntese, o resultado de junho traz alívio relevante na margem, mas ainda há riscos para a inflação no segundo semestre: (i) manutenção da resiliência dos preços de serviços por conta do mercado de trabalho aquecido; (ii) apesar da queda das cotações do petróleo, potenciais efeitos de segunda ordem do choque do conflito ainda devem ser transmitidos para os preços; (iii) estímulos fiscais à demanda que podem sustentar a atividade acima do potencial, dificultando a convergência da inflação à meta; e (iv) impactos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. Sobre este último ponto, as estimações de junho da NOAA indicam que o fenômeno El Niño deve permanecer até março de 2027, com viés altista relevante para os preços de alimentos e energia.
Em conjunto, avaliamos que o resultado de junho é uma notícia bastante positiva para o Banco Central, pois retira parte da pressão do cenário inflacionário de curto prazo. Ainda assim, será necessário acompanhar os próximos dados para confirmar se a tendência de desaceleração terá continuidade.
O principal ponto de atenção nos próximos dias, a nosso ver, seria uma nova elevação dos preços do petróleo, caso as hostilidades no Oriente Médio se intensifiquem e provoquem novos fechamentos do Estreito de Ormuz. O episódio mais recente ilustra bem o ponto: o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã abriu uma janela de 60 dias de negociação e trouxe alívio ao mercado, mas embates militares nos últimos dias entre os dois países geraram apreensão e devolveram parte do prêmio de risco geopolítico. Em nosso cenário-base, avaliamos que episódios como esse são esperados, dado o histórico de acordos anteriores que falharam por falta de garantias e por volatilidade política.
O ponto central é a evolução dos próximos dias: se as tensões se dissiparem e o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz seguir se normalizando, o preço do petróleo tende a permanecer contido. Já um cenário de reescalada reabriria o prêmio de risco, reverteria a recente queda do petróleo, fortaleceria o dólar e dificultaria ainda mais o trabalho dos bancos centrais, que já lidam com pressão inflacionária em várias economias.
O Banco Central, por sua vez, manteve postura cautelosa e deixou o cenário em aberto, reforçando que as próximas decisões seguirão dependentes da evolução dos dados e da avaliação dos riscos para a inflação. Em nosso cenário-base, ainda que o grau de restrição acumulado pela política monetária já tenha produzido efeitos importantes sobre a economia, a combinação de atividade mais forte, mercado de trabalho resiliente, estímulos à demanda, incertezas climáticas sobre alimentos e energia, riscos associados ao cenário externo e, sobretudo, a desancoragem das expectativas demandam uma postura mais hawkish da autoridade monetária. Dessa forma, mantemos a expectativa de manutenção da Selic em 14,25% a.a. na próxima reunião do Copom, em agosto.









